"Temos que agradecer ao FBI", diz cartola chileno sobre escândalo na Fifa
21/11/2017 - 15h23 em Esportes

Harold Mayne-Nicholls, ex-presidente da Federação Chilena de Futebol (2007-2011) foi citado na semana passada como um dos dois dirigentes de futebol da América do Sul que não recebeu propina para beneficiar empresas de marketing esportivo. O outro foi Sebastian Bauzá, do Uruguai.

O cartola chileno, porém, já foi punido com uma suspensão de dois anos pela Fifa. Quando era chefe do Comitê que avaliava candidaturas para a Copa do Mundo de 2022, ele escreveu para dirigentes da Aspire Sports (uma academia ligada ao governo Catar) pedindo vagas em estágios para seu filho, seu sobrinho e seu cunhado. Embora a atitude tenha sido considerada conflito de interesse, o relatório de Mayne-Nicholls foi crítico para o Catar: ele escreveu que seria "inviável" fazer o mundial no país do Oriente Médio.

Nicholls, que tem 56 anos e foi um jornalista esportivo de sucesso antes de ingressar na carreira de dirigente, falou por telefone ao GloboEsporte.com sobre a punição que recebeu da Fifa, explicou sua relação com os empresários que pagaram propina no "Caso Fifa", garantiu e contou por que nunca recebeu suborno, ao contrário de quase todos os seus colegas sul-americanos.

 

Num depoimento para a Jusitça dos Estados Unidos, o empresário argentino Alejandro Burzaco afirmou ter subornado todos os dirigentes da América do Sul, com duas exceções: o senhor e Sebastian Bauzá, do Uruguai. O sr. sabia o que acontecia na Conmebol?

Nunca escutei nada e ninguém me ofereceu nada. Nunca estive com os outros presidentes fora das reuniões protocolares. Não era de ir nos jantares, nos encontros, nessas coisas que dirigentes costumam ir. Não era meu estilo.

Alguns empresários confessaram ter pagado subornos, como J. Hawilla, Alejandro Burzaco e Hugo Jinkis. Teve contato com eles?

Hawilla conheço muito bem, desde que ele era repórter, desde quando começou a Traffic. Trabalhamos juntos na Copa América de 1991 [no Chile]. É o que mais conheço. A mim nunca ofereceu nada. Nunca me disse: "Faça isso e você vai ter algum benefício". Nada. Jinkis conheço desde 1993, mas também nunca me ofereceu nada. Burzaco é o que menos conhecia. Nunca estive em seu escritório e nem ele no meu.

Ficou surpreso quando tudo isso foi revelado?

Quando eu notei que Sergio Jadue [seu sucessor na Federação Chilena] chega e escala tão rapidamente várias posições na Conmebol, aí comecei a suspeitar que algo tinha acontecido. Criaram até cargo que não existia para acomodá-lo. Eu nunca tinha visto alguém chegar tão alto com tanta velocidade. Aí comecei a suspeitar. Quando Burzaco começou a falar, na semana passada, eu entendi o que havia acontecido. Estou impressionado que as pessoas possam ser tão egoístas para castigar o futebol em benefício próprio. Isso não tem defesa.

Conviveu com Ricardo Teixeira?

Eu o conheci em 1989, quando escrevi um livro sobre o "Caso Rojas" e nos encontramos em Zurique. Depois, quando virei presidente da Federação, sempre tivemos um trato respeitoso. Em 2007, antes do jogo entre Chile e Brasil pelas Eliminatórias, o convidei para jantar na minha casa. E lá fiz uma proposta: "Vocês vão receber a Copa do Mundo em 2014, a Olimpíada em 2016 e a Copa América em 2015, que vai ser um evento pobre perto dos outros dois". Então propus trocar com o Chile, que receberia a Copa América em 2019.

Ele disse: "Não vejo problema, mas todos os direitos comerciais e de televisão de 2015 são da Traffic. Nesse momento, ele defendeu a Traffic na minha frente. Não sei se ele tinha algo com isso, ele deve saber. Depois soube que ele assinou o contrato que vendia a mesma Copa América para a Full Play. Isso me chamou atenção, mas eu já estava de saída do futebol e nunca mais falei com ele.

O sr. assinou esse contrato?

Nunca. Porque Ricardo havia me dito que a Copa América de 2015 era da Traffic. Eu exigi ler o contrato da Full Play, li e não assinei. Depois eu saí, Jadue entrou e assinou. Ele está preso em Miami e eu posso circular pelo mundo.

Ofereceram algo para o sr. assinar aquele contrato?

Nunca. Nunca soube que havia dinheiro. Eu não assinei porque era imoral, ilegal, ilegítimo. Isso começou em agosto de 2010. O primeiro que veio pedir para eu assinar foi Luis Chiriboga, do Equador [hoje preso em Quito]. Eu disse: lamento, não vou assinar, não posso vender duas vezes a mesma coisa. Eu li o contrato da Traffic: eles eram donos da Copa América de 2007, 2011 e 2015. E não assinei.

O que acha das críticas segundo as quais os EUA estão extrapolando suas fronteiras ao investigar empresas e pessoas sul-americanas?

Se não fosse pelos EUA, essas pessoas continuariam a roubar o futebol. Todos estão sendo julgados lá porque circulou dinheiro lá, por bancos de lá, todo mundo sabe que isso é um delito. Todos os que gostamos de futebol deveríamos agradecer ao FBI por limpar essa escória que roubou o futebol. E roubar o futebol é roubar o povo. Não há espaço para reclamar, porque os EUA estão fazendo o que nós não fazemos.

O sr. foi punido pela Fifa por ferir artigos do Código de Ética. Em comparação ao que aconteceu na América do Sul, sua punição foi justa?

Meu pecado foi mandar um e-mail, e eu já admiti que não deveria ter mandado aquele e-mail. Não punem ninguém, mas me puniram por enviar um e-mail. Já paguei, estou livre. Acabou. Não quero fazer disso um drama e comparar um caso a outro. Foi uma situação desagradável, mas já passou, já paguei.

Tem planos de voltar a ser dirigente de futebol?

Planos, não. Mas a vida te leva por caminhos que você não esperava percorrer. Se me convidarem a trabalhar com futebol, eu vou tomar mais cuidados do que tomava antes. É algo que vai contra minha forma de ser, mas vou ter que desconfiar mais.

Como avaliou o fato de o Chile não ter se classificado para a Copa do Mundo?

Fiquei muito triste, porque havia um time preparado para isso. Mas não vamos ao Mundial porque planejamos mal os jogos contra Paraguai e Bolívia. Você não pode chegar à última rodada achando que vai ganhar do Brasil em São Paulo.

Quem é favorito para ganhar a Copa?

Os de sempre. Brasil, Argentina, Alemanha. A França pode oferecer uma surpresa. E vale a pena olhar a Inglaterra, que ganhou os mundiais sub-17 e sub-20 no mesmo ano. Esses jogadores podem se desenvolver e levar a Inglaterra longe no futuro.

Por Martín Fernandez, São Paulo

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